domingo, 14 de março de 2010

TrEcHo ---- Vinícius de Moraes


Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a flauta falou: Fui eu.
.
.
.
Mas quem foi, disse a Flauta
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
.
No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o diia inteiro,
entre um planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
(Cecília Meireles)

...Luís Vaz de Camões...

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que doi e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nuca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade;
Mas como causar pode seu favor
Nos corrações humanos amizade,
Se tão contrário a si mesmo é o mesmo Amor?

(Luís Vaz de Camões, 1524-1580)